
Nos últimos anos, a sigla ESG passou a ocupar um lugar central nas discussões sobre o futuro das empresas e da economia global. Mais do que uma tendência corporativa, essas três letras representam um conjunto de práticas que redefine a forma como as organizações se relacionam com o planeta, com as pessoas e com suas próprias estruturas de gestão. Compreender o que está por trás desse conceito tornou-se essencial para gestores, investidores e para todos que desejam entender os rumos da sustentabilidade corporativa.
As raízes dessa discussão, no entanto, são anteriores à própria sigla. Em 1994, o britânico John Elkington, consultor e empreendedor na área de responsabilidade corporativa, cunhou o termo Triple Bottom Line (TBL), ou "tripé da sustentabilidade". A ideia era provocar as empresas a olharem além do lucro financeiro e considerarem também os seus impactos sociais e ambientais — o que ficou conhecido como os "3 Ps": people, planet, profit (pessoas, planeta e lucro). O conceito serviu de base para iniciativas como a Global Reporting Initiative (GRI) e influenciou diretamente o que viria a ser chamado de ESG.
Uma década depois, em 2004, a discussão ganhou um novo impulso. Kofi Annan, então secretário-geral das Nações Unidas, lançou um desafio aos líderes de 50 das maiores instituições financeiras do mundo: de que forma seria possível incorporar critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento? O resultado foi o relatório Who Cares Wins ("Quem se importa, ganha", em tradução livre), elaborado pelo Pacto Global da ONU em parceria com o Banco Mundial. Foi nesse documento que a sigla ESG apareceu pela primeira vez, consolidando a ideia de que empresas com práticas sólidas nessas três dimensões tendem a apresentar um melhor desempenho no longo prazo. Desde então, a agenda não parou de crescer e hoje orienta decisões de negócios em escala global.
Leia mais
Descarbonização: conceito, importância e estratégias
O que significa ESG?
ESG é a sigla para os termos em inglês Environmental, Social and Governance. Em português, refere-se às dimensões ambiental, social e de governança que passaram a ser consideradas na avaliação do desempenho e da sustentabilidade das organizações. Esses três elementos funcionam como pilares interdependentes que orientam a atuação das empresas diante dos desafios do século 21.
Segundo Annelise Vendramini, professora e pesquisadora em finanças sustentáveis na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP), a forma mais objetiva de entender a importância do ESG é reconhecer que as questões ambientais, sociais e de governança representam riscos importantes para qualquer negócio. "Se não forem bem geridas, se não compuserem as ferramentas da gestão estratégica de riscos do negócio, elas podem comprometer a habilidade da empresa de gerar valor econômico e podem destruir o valor econômico que foi gerado", explica.
Os três pilares do ESG
A sigla ESG é sustentada por três pilares: ambiental, social e governança. Conheça o significado e a abrangência de cada um deles a seguir.
Ambiental
Este pilar abrange todas as práticas relacionadas ao impacto das operações empresariais sobre o meio ambiente. Inclui a gestão do uso da água, o consumo de energia, o tratamento de resíduos, as emissões de gases de efeito estufa, a preservação da biodiversidade e o compromisso com a economia circular, por exemplo.
Social
O componente social engloba a forma como a empresa se relaciona com os seus colaboradores, com as comunidades vizinhas, com os fornecedores e com os clientes. Entram aqui temas como diversidade e inclusão, condições de trabalho, saúde e segurança ocupacional, respeito aos direitos humanos na cadeia de suprimentos e contribuição para o desenvolvimento das comunidades.
Leia mais
O que são conservação e preservação ambiental
Governança
A governança diz respeito às estruturas de gestão, à transparência e à ética nos negócios. Abrange desde a composição do conselho de administração até as práticas de compliance, o combate à corrupção, a proteção de dados e a prestação de contas aos diferentes públicos de interesse.
Embora sejam apresentados separadamente para fins didáticos, a divisão entre os pilares ESG é mais operacional do que conceitual. "No nível estratégico da empresa, esses temas são vistos de maneira integrada. Já no nível tático e operacional, é preciso dividir em ações e projetos para criar indicadores de acompanhamento", esclarece Annelise.
Por que as práticas ESG são importantes?
A relevância do ESG vai além de uma questão de imagem ou de posicionamento de mercado. Trata-se de reconhecer que as empresas fazem parte da sociedade e operam dentro de um planeta com limites ambientais bem definidos. Como destaca a pesquisadora da FGV, "a empresa não se relaciona com a sociedade, ela é parte da sociedade. Quando a gente olha para os desafios que vivemos hoje, como as questões sociais e de redução de desigualdades, isso faz parte do espírito dos nossos tempos".
Essa visão encontra respaldo em dados concretos. Um estudo da consultoria McKinsey, publicado em 2023, analisou mais de 2.200 empresas de capital aberto e concluiu que aquelas com desempenho superior em crescimento, lucratividade e práticas ESG registraram retorno aos acionistas dois pontos percentuais acima das que se destacaram apenas nas métricas financeiras. O estudo indica que um forte compromisso com ESG agrega valor adicional para os acionistas, desde que a empresa também apresente bons fundamentos de gestão.
Além disso, as transformações mundiais em curso exigem atenção dos líderes empresariais. "O clima está mudando, as condições que afetam as operações dos negócios estão mudando. Um bom gestor não pode ignorar os fatos”, diz Annelise. As consequências de não agir, segundo a professora, frequentemente se traduzem em perdas de margem, de participação de mercado e de rentabilidade.
Como as empresas estão aplicando ESG?
A implementação de práticas ESG começa com um processo bem estruturado de identificação dos temas materiais, aqueles que são mais relevantes para cada negócio específico. Uma instituição financeira terá prioridades diferentes das de uma indústria de cosméticos ou de uma empresa de celulose. O fundamental é que a organização mapeie seus impactos e desenvolva ações para minimizar os negativos e potencializar os positivos.
Na prática, as companhias têm adotado iniciativas como metas de redução de emissões de carbono, programas de diversidade e inclusão, investimentos em energia renovável, gestão responsável de recursos hídricos, desenvolvimento de produtos de origem renovável e fortalecimento das práticas de governança.
Um exemplo de aplicação consistente dessas práticas são os Compromissos para Renovar a Vida, da Suzano, multinacional brasileira produtora de celulose e papel. A iniciativa estabelece metas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Entre os compromissos estão, por exemplo: auxiliar na retirada de 200 mil pessoas da linha de pobreza, remover 40 milhões de toneladas de carbono da atmosfera e conectar 500 mil hectares de fragmentos florestais por meio de corredores ecológicos.
Leia mais
Como implementar a educação ambiental
Quais são as vantagens de adotar práticas ESG nos negócios?
A adoção de práticas ESG traz benefícios concretos para as empresas. Annelise destaca três vantagens principais. "A primeira, e a mais óbvia, é ter acesso a mercados em que isso tem se tornado cada vez mais importante, como o europeu e partes do asiático. E há setores em que a questão da tutela socioambiental se tornou fundamental".
A segunda vantagem está relacionada ao acesso a capital. As companhias com boas práticas ESG conseguem se relacionar com investidores e instituições financeiras dispostos a oferecer recursos com prazos mais estendidos, taxas mais atrativas e maior alinhamento estratégico.
O terceiro ponto é a gestão da reputação e da legitimidade. "Hoje em dia, é impossível zelar pela sua reputação se você não incorporar essas questões em alguma medida. Ninguém quer estabelecer um contrato de longo prazo com uma empresa que não tem boa reputação, que não é vista como legítima", afirma Annelise.
Conclusão: ESG deve ser um compromisso
É importante ressaltar que o ESG precisa ser um compromisso genuíno, e não apenas um discurso vazio, pois o momento atual é o de uma nova fase da agenda de sustentabilidade, marcada por maior rigor na verificação de dados e indicadores.
"Cada vez mais as instituições, sejam as empresas, os reguladores ou os consumidores, estão preocupados em saber se aquela informação é verdadeira, se ela representa na totalidade o engajamento e o que a empresa está fazendo", diz Annelise. O caminho, portanto, é de transparência, coerência e compromisso real com a transformação.